Foi em 2021 em que a escola recebeu a coleção de livros que contava com 2083 e demorei 5 anos para ter minha curiosidade despertada. Voltei a dar aulas para o sexto ano depois de um longo tempo e, prestes a terminar o livro que é um sucesso entre eles: Nem tão sozinhos assim, de Ângela Carneiro; uma aluna - Ana Júlia Rodrigues dos Santos - sugeriu o livro em questão. Ela também não conhecia ao certo a história, mas comentou com certo entusiasmo que despertou a curiosidade da leitora aqui que pensou: por que não?
O mais incrível é que tudo foi tão coerente com o final da outra história que parecia que este era, justamente, o livro certo para dar sequência às aulas de leitura. No epílogo, quando Joana folheia o caderno da Bisá, percebe que há duas páginas coladas. Ao separá-las, encontra uma carta dirigida ao futuro, que diz, entre outras coisas:
"Até mesmo livros serão coisas do passado: tudo virá pela televisão. Será que perdi meu tempo escrevendo estas receitas? Não, não perdi o meu tempo. Fiz de meus dias o mesmo que fiz com essas páginas: preenchi da melhor maneira possível.
Então, futuro, venha!"
E o futuro veio na obra 2083, onde conhecemos David e seu pai que vivem em um tempo em que livros não mais existem como já previra Bisá na obra anterior. O filho nunca vira um, e o pai tinha guardava a sete chaves um livro de seu avô, que se desfaz quando David o tira do lugar em que está conservado. Tudo é tecnológico, inclusive o cachorro de estimação Nove. Não é difícil pensar em um mundo assim, quando estamos tão envolvidos com a Internet, Inteligência Artificial, pensando cada vez menos e vivendo o mundo aos cliques, postagens, fazendo compras on-line, conversando mais pelo WhatsApp do que pessoalmente.

O pai de David, chamado de Pa, trabalha em uma Bibliotravel, uma agência de viagens ao interior dos livros. Achei a ideia simplesmente incrível! Na obra, existem duas formas de realizar essa viagem. A primeira é por meio de um implante, que transfere para a memória do viajante o programa do livro escolhido. Nesse caso, a história deve ser vivenciada até o fim, com pouca autonomia para alterar o contexto original. A segunda acontece por meio da conexão de estimuladores sensoriais à pele, que transmitem ao sistema nervoso todas as informações contidas no livro. Essa modalidade oferece mais liberdade ao viajante, que pode modificar detalhes da narrativa e até sair dela quando desejar.
Escolhendo a segunda opção, viajamos com David para várias histórias, e, ao entrar no livro, ele passa a ser algum personagem, não um mero observador da história.
A primeira é a Bíblia e há um detalhe de que gostei muito. O menino tem certo receio de entrar na história e ser Deus, mas não há essa possibilidade. Acharia muita pretensão se tivesse.
Da Bíblia, ele escolhe o Primeiro Livro de Samuel que conta com a história de Davi e Golias, e assume o papel do próprio Davi, mas resolve sair dela quando teria que cortar a cabeça de Golias. A passagem despertou minha curiosidade, e cheguei a pesquisar a história bíblica para verificar a semelhança entre o texto original e a narrativa apresentada na obra, a qual é mesmo fiel.
A cada história que ele viaja, volta cansado; e eu, como leitora, também. Descansei depois de cada uma delas.
A próxima aventura foi entrar na Ilíada, com um acréscimo da Odisseia. Dessa vez, nosso menino assumiu o papel de Sinon, o espião grego, cuja missão era fingir que havia sido abandonado pelos companheiros e, assim, convencer os troianos a levar o Cavalo de Troia para dentro da cidade, como oferenda à deusa Atena.
Mas, dessa vez, ele decidiu mudar completamente o rumo da história. Não conseguiu sustentar a farsa, contou a verdade aos troianos e acabou fazendo com que eles descobrissem o plano dos gregos. O resultado foi uma reviravolta completa: os troianos venceram a guerra e todos os gregos que estavam escondidos dentro do cavalo de madeira morreram. Uma pequena mudança na narrativa original foi suficiente para transformar completamente o desfecho de uma das histórias mais conhecidas da literatura.
A viagem a Dom Quixote ganhou meu coração, que tive vontade de ler o livro. Fui surpreendida ao ser presenteada pelo meu namorado no final das férias de julho enquanto tomava sol.

Dessa vez, David lê cinco capítulos de Dom Quixote pela Cosmonet, diverte-se com a história e decide viajar para dentro dela. Ao chegar, passa a ocupar o papel de um personagem secundário, descrito como um “moço de campo e praça”, que fazia de tudo um pouco. É então que acompanha um episódio em que os livros de Dom Quixote seriam queimados, pois sua loucura era atribuída à leitura dos antigos romances de cavalaria.
David tenta impedir que isso aconteça e chama Dom Quixote para alertá-lo, mas acaba provocando ainda mais confusão. O fidalgo, tomado por sua imaginação, julga que aqueles que estão diante dele são feiticeiros e parte para a luta. Mais adiante, David presencia outra de suas aventuras: Dom Quixote investe contra os moinhos de vento, convencido de que são gigantes, e se desgasta em mais uma batalha. Em seguida, ao encontrar dois frades, também os ataca, acreditando que eles haviam raptado uma princesa.
David sai da história quando encontra Dom Quixote completamente estropiado, com a orelha machucada, e deixa aquela viagem com a sensação de ter vivido, de dentro, alguns dos episódios mais conhecidos da obra e deixa essa aventura agradecido por descobrir que Sancho era, de fato, um fiel escudeiro de seu fidalgo.
Estou lendo Dom Quixote e encontrei no livro os episódios narrados em 2083, exatamente como descritos na obra. Foi interessante perceber esse diálogo tão direto entre os dois livros e, de certa forma, acompanhar a aventura de David enquanto eu mesma percorria as páginas de Cervantes.
A próxima viagem é por David Copperfield, uma obra que me trouxe uma lembrança curiosa: ela foi leitura obrigatória no ensino fundamental, quando eu estudava no Colégio Objetivo. Naquela época, porém, eu não gostava nem um pouco da obrigação de ler o livro para depois responder às perguntas da tarefa. A resistência era tanta que, passados tantos anos, não me lembro absolutamente nada da história. O que ficou na memória foi apenas uma capa roxa.
Entretanto, viajar pela história não foi uma experiência ruim. David entra nela como David Copperfield. Acompanhamos de perto a infância marcada pela perda do pai e pela chegada de um novo companheiro da mãe, que não gosta do menino e passa a maltratá-lo. A mãe, submissa e sem forças para enfrentá-lo, não consegue impedir os castigos.
David deixa a história quando vai ao cemitério chamar pelo pai. Ao retornar da viagem, porém, a experiência parece despertar nele uma lembrança afetiva: ele se recorda de sua própria mãe, como se, de alguma maneira, tivesse vivido também um reencontro com sua Ma.
A última viagem é à uma novela Primeiro Amor, porque David sentia uma necessidade de amar alguém.
É nessa história que conhece Zenaide, por quem se apaixona. A mãe dela também demonstra grande apreço pelo jovem, e os dois chegam a conversar sobre literatura. Em uma dessas conversas, ela se refere a Dom Quixote como “o mais prazeroso do mundo” e a seu protagonista como “o homem mais nobre”.
Em determinado momento, David, agora Voldemar, salva a cachorrinha Fifi de uma carruagem que passa em alta velocidade. É justamente nesse instante de tensão e impulso que acontece o primeiro beijo entre ele e Zenaide, tornando a experiência ainda mais marcante. Afinal, David havia entrado naquela história em busca de amor e acaba vivendo, de fato, o seu primeiro encontro com esse sentimento.
Foi o livro no qual viajou mais tempo, por 9 horas e 11 minutos.
Achei fantástica a ideia de viajar nos livros, de vivenciar de verdade, pois transforma a leitura em uma experiência imersiva, permitindo não apenas conhecer uma história, mas habitá-la.
Às vezes, a leitura me envolve de tal maneira que tenho a estranha sensação de já ter assistido ao filme daquela história. As cenas se formam na minha imaginação, os personagens ganham rosto, voz e movimento, e, por alguns instantes, a fronteira entre aquilo que li e aquilo que vi parece desaparecer.
Trata-se de uma obra cuja temática central são os livros e que nos convida a refletir sobre o futuro da leitura. Será que ainda teremos livros no futuro? Será que continuaremos a ter acesso às histórias clássicas que atravessaram gerações e proporcionaram a tantos leitores viagens inesquecíveis? Mais do que imaginar um mundo sem livros, 2083 nos faz pensar no que perderíamos se eles deixassem de existir.
Eu que não gosto de livros de ficção, devo dizer que me surpreendeu, inclusive o desfecho. Achei de grande sacada. E o melhor foi lê-los com uma sala, em especial, que compreendeu o final sem que eu mencionasse nada. É essa a aula de leitura em que acredito. Que não é preciso pegar determinado exemplar para realizar tarefas, responder perguntas, testar a memória... O livro foi feito para ser lido, simplesmente pelo prazer de ler. Pode ser que meu aluno não se lembre o nome do protagonista, mas sei que um deles não esquecerá do Pa, que outro lembrará do livro que desapareceu, que algum ficou pensando no cachorro que viajou na história, outra lembrará da bela Helena, e há ainda quem se lembrará de Davi e Golias. Cada um tem um momento com o livro e ele acaba significando de uma forma singular durante a leitura.
2083 é a dica de leitura em doses múltiplas, pelas referências que apresenta em seu enredo. Não encontrei nenhuma inadequação para ler com o 6° ano. O vocabulário que apresenta uma ou outra palavra que precisa ser esclarecida. É pertinente para qualquer idade. Eu, nos meus 42 anos, adorei.
Por qual livro que você gostaria de viajar pela Bibliotravel? Deixo esta pergunta para você, meu leitor, enquanto penso qual eu gostaria....
SELEÇÃO DE TRECHOS...
"É um homem de guerra desde o seu nascimento. Veio ao mundo com uma lança na mão e uma espada na outra."
(Referência a Golias. Mas eu tenho outra.)
"Aprendi que, quando alguém lê um livro, relaciona continuamente o que está lendo com o que já leu ou com o que sabe, de modo que vai mudando enquanto lê e, ao mesmo tempo, vai acrescentando detalhes ao livro, como uma paisagem."
"Se há um objeto realmente interativo, é o livro."
"Outra coisa que aprendi é que o leitor também pode ir modificando seu ponto de vista à vontade."
"Os bons livros foram escritos para despertar as pessoas, para sacudir suas consciências, para ajudá-las a se questionarem."
"- Nunca saí com uma garota, a não ser em grupo. Não sei como tratar as meninas, não sei o que é preciso fazer para gostar delas, não sei nada delas...
- Não tem muito que saber. No fundo, não são tão diferentes. Basta se deixar levar pelas emoções e ser você mesmo."
"Convém que você seja amigo dela, se quer ser meu amigo também."
(Referindo-se a cachorrinha de estimação.)
"A vida é longa. Somente aos jovens ela parece curta."
"Se um livro é como um sonho, e ao nos darmos conta de que sonhamos, despertamos, então o que acontece quando se descobre que toda a sua existência se reduz a uns capítulos?"
(Para refletir sobre a vida.)
"Quando viajamos por um livro, somente nos relacionamos com os demais personagens enquanto permanecemos no seu interior, como um deles. Se voltasse ao presente, não deixaria nenhuma recordação, nenhuma marca. Ao abandonar o livro, seria como se eu nunca tivesse estado nele."
(Isso me faz pensar que é o que ocorre quando me esqueço completamente do que li.)
"Sempre pensei que, quando alguém pede um livro, é porque precisa, e que esse desejo deve ser satisfeito."
Até a próxima postagem!
Hoje dia de eleição presidencial
e aproveito para atualizar meu Blog,
enquanto aguardo o resultado do meu time Brasil.
Parece Copa do Mundo, mas há muito mais em jogo.
Espero que eu possa comemorar,
como tantos brasileiros, que esperam por isso,
que vestem a mesma camisa verde e amarela.
Que possamos voltar a acreditar em um país melhor!
Demorei, mas atualizei. Como diz um verso de um poema
de Vinícius de Moraes:
"Meu tempo é quando."
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