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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A Pequena Padaria do Brooklyn - Julie Caplin

Já faz algum tempo que terminei a leitura do livro, o qual adorei, mas acabei demorando para fazer minhas reflexões sobre ele, portanto a postagem será uma tentativa de resgate.

A pequena padaria do Brooklyn faz parte dos livros intitulados destinos românticos e conta a história de Sophie, a qual recebe um convite para ficar seis meses como colunista de culinária em Nova York, mas ela recusa de imediato, sem pensar, afinal ela tinha uma vida estável como editora de gastronomia em Londres e um namorado que parecia dedicado ao relacionamento. 

A vida seguia seu curso até que a mentira de que James cuidava da mãe doente veio abaixo. Sophie descobriu da pior forma que o namorado tinha outra família e uma filha pequena, durante um café despretensioso pela cidade, sem imaginar que aquele momento mudaria tudo.


Foi o basta que ela precisava para recalcular rota imediatamente e aceitar aquele convite inicial e repentino, deixando para trás as escolhas feitas por ela quando viu e sentiu que não tinha sido escolhida.

Difícil decisão quando a realidade é arremessada dessa forma, e eu diria que nossa protagonista foi corajosa. Seguimos com ela rumo ao desconhecido para um lugar em que ela não havia planejado. Mas às vezes a gente acha que está no controle da vida, e Deus tem outros planos.

Sophie se permite, mesmo que a princípio fique fechada na casa sem saber o que fazer, onde ir e até o que pensar. Era um recomeço, e ele não costuma ser fácil.

No trabalho, ela conhece Todd, um daqueles homens que não passam despercebidos: sempre cercado de mulheres, distribuindo galanteios e ostentando sua fama de mulherengo. Em outras palavras, perigo à vista!

No prédio onde está hospedada, Sophie conhece Bella, após ouvir um barulho e encontrá-la caída no chão, com seus docinhos espalhados e metade deles desfeitos. Esse episódio marca o início de uma amizade autêntica, na qual Sophie lhe oferece ajuda, companhia, palavras de conforto e apoio, dando início a uma relação pautada pelo cuidado e pela solidariedade. Detalhe: o mundo pequeno também se faz presente nos romances. Bella é prima de Todd e alerta Sophie para que não cometa o erro de se apaixonar por ele. Mas mulheres, assim como crianças, não sabem ouvir um não, simplesmente não compreendem essa palavra... 

Obviamente, o romance acontecerá entre Sophie e Todd. Tudo começa com um convite para um brunch. Enquanto ele lhe apresenta Nova York, ela revela um pouco de si: uma mulher com uma história, marcada por uma desilusão amorosa, mas que ainda acredita na possibilidade de encontrar um novo amor.

Depois, Todd a leva a Manhattan, atravessando o rio East pela ponte mais antiga de Nova York. Há um "Araguaia" em cada canto do mundo. E os convites continuam: a inauguração de um restaurante, uma corrida, um sorvete, um almoço… Pequenos encontros que vão construindo uma intimidade gostosa, feita de conversas, descobertas, revelações, e da companhia agradável que um encontra no outro. 

Há nessa relação um quê de aconchego, uma leveza que também nos conquista. E, assim como Sophie, ficamos à espera de cada novo convite, torcendo para que o próximo seja um pouco mais ousado, mais surpreendente ou simplesmente mais especial.

E então chega o convite para conhecer a casa de praia dos pais de Todd e, com ele, um universo de ostentação que contrasta com a escassez de laços afetivos daquela família. Nesse ambiente, conhecemos Marty, irmão de Todd, que parece viver em um mundo paralelo, imerso nos videogames, alheio ao que acontece ao redor. As relações familiares também se revelam frias, superficiais e, por vezes, grosseiras, deixando transparecer que, por trás de tanto luxo, falta justamente aquilo que torna uma casa um lar: afeto, acolhimento e conexão.

Sei que o romance, embora seja meio clichê, é uma delícia de ser lido. Acompanhamos Sophie, sofremos com ela e, de certa forma, também recomeçamos ao seu lado, em outro lugar, cercada por novas pessoas e possibilidades. E, inevitavelmente, pensamos: E se acontecesse comigo? O que eu faria? Seria como Sophie? Perdoaria James? Viveria uma aventura com Todd? Arriscaria uma nova história, mesmo sabendo que ele deixava claro não ser aquilo que desejava para a própria vida?

E se eu contar que James vai atrás dela? Pois é! O romance é cheio de reviravoltas desde as primeiras páginas, daquelas que nos fazem mudar de ideia, criar expectativas e querer descobrir o que vem a seguir.

Mas a história não nos convida apenas a refletir sobre o amor, as escolhas e os recomeços. Ela também desperta aquela vontade irresistível de fazer as malas, conhecer novos lugares, experimentar outras culturas e descobrir que, às vezes, mudar de cenário pode ser o primeiro passo para transformar a própria vida.

No fim, fica aquela sensação gostosa de ter viajado sem sair do lugar e a vontade de continuar acompanhando Sophie, torcendo por ela e tentando adivinhar qual será sua próxima escolha. Afinal, alguns romances podem até ser clichês, mas, quando nos fazem sonhar, questionar nossas próprias decisões e viajar junto com os personagens, cumprem muito bem o seu papel.


SELEÇÃO DE TRECHOS...

"Você tem 86.400 segundos hoje. Já usou um deles para sorrir?"

"Quando você ama seu trabalho, nem parece trabalho."

"Bolos têm um quê a mais. Expressam amor. São delícias açucaradas. Bolos são bons no Natal, em comemorações, feriados e aniversários. Em casamentos. São para dias felizes, bem felizes. (...) O mundo precisa de mais felicidade."

"Cortar o bolo é a primeira coisa que os recém-casados fazem juntos. É símbolo do companheirismo."

"Não sei o que é pior. Ter alguém com quem terminar ou nem mesmo ter essa possibilidade."

"Aqui é Nova York, a cidade que nunca dorme."

"Não tem lugar como este aqui. Mas é comum se sentir solitário. Se tornar anônimo. É assim em qualquer cidade grande."

"Toda manhã você tem duas opções: continuar a dormir e sonhar ou acordar e correr atrás dos seus sonhos. A escolha é sua."

"Levei semanas para encontrar as pessoas certas para trabalhar aqui. Quero pessoas competentes e felizes."

"A forma como a pessoa se sente é escolha dela. Dá pra escolher ficar triste. Dá pra escolher ignorar algo."

"Negar um trabalho requer coragem, mas às vezes é a coisa certa a se fazer."

"Acho que fechei os olhos. Não vi o que não queria ver."
"- Não estou planejando ter um casinho.
- E por que não?
-Infelizmente, não fui feita para casinhos. Sou uma mulher de tudo ou nada."

"A gente precisa desafiar nosso paladar."

"Uma refeição é a soma de muitas coisas, não é apenas a comida em si. É a atmosfera, a companhia, as lembranças que você cria. A refeição perfeita traz um aconchego especial, é uma soma de todas as coisas."

"Era uma daquelas manhãs que faziam qualquer um se sentir feliz por estar vivo."

"As árvores estão presas à terra. Vê-las em todas as estações dá certa tranquilidade. É consistente. Brotos nascendo na primavera, florescendo no verão, dando um último gás no outono com adornos cheios de cor. As folhas não morrem simplesmente, elas chegam ao fim em grande estilo."

"Era um momento perfeito. Companhia e silêncio. Um bom café. Comida. Nenhuma exigência. Sem precisar estar em algum lugar, sem pressão para conversar, para ser nada além de si mesma."

"Percebeu que estava feliz e satisfeita de verdade com sua sorte."

"Ele era demais em tudo. Tinha 'perigo' estampado em cada gesto."

"- Não posso dar o que você quer.
- Como sabe o que eu quero?
- Você é do tipo que busca um amor.
- Se não quiser me beijar, vou encontrar alguém que queira."

"Vou viver o agora. Aproveitar e me permitir curtir, em vez de colocar tudo em modo de espera até que as coisas certas aconteçam."

"As pessoas querem a nostalgia do Natal, a tradição. Querem reproduzir o que suas famílias faziam."

"Ele era do tipo martini: a qualquer hora, em qualquer lugar."

(Eu pensaria em campari...)


"Era o som da noite de sexta entrando pela janela aberta."

"Com você tudo é surpresa."

"Ser parte de um casal no meio da multidão feliz que aproveitava o fim de semana era uma bela mudança de perspectiva."

"Coragem é quando você tem medo e, ainda assim, faz algo, é quando você enfrenta. Isso é coragem de verdade."

"De alma leve e sorriso largo, ela o observou."

"Sua parte favorita do dia era acordar ao lado dele."

"A ausência faz o coração sentir falta, é o que dizem."

"Tinha dito a verdade. Se ele não podia lidar com isso, era problema dele."

"Ele vestia apenas uma toalha enrolada na cintura. Sentiu-se feminina e com uma pontada de orgulho por ter aquele homem lindo só para si - soubesse ele disso ou não."
(Eu posso ver essa cena...)

"- Você disse...
- Eu disse que te amo.
- Isso. É.
- Você não deveria. Eu não mereço.
- É escolha minha."
(Aquele assunto delicado sobre declarar-se...)


"Muitas pessoas têm relacionamentos felizes, só que o amor deixa a pessoa suscetível a ser magoada. Mas vale a pena, por causa de todas as partes maravilhosas de amar e ser amado."

"Eu sabia disso tudo quando começamos essa história. Amar você é escolha minha."

"Ela não deixaria de amá-lo. Ele teria que aprender a conviver com isso."

"Cortar o bolo é a primeira coisa que um casal faz junto depois que se casa. É um símbolo da união deles, de fazer as coisas em equipe, do futuro compartilhado. E esse futuro inclui a família, quando eles distribuem o bolo para os convidados, alimentando seus entes queridos, abraçando uma família em expansão."

"Ouvir o nome dele era como uma referência à outra vida."

"-Ser corajoso é reconhecer seus limites.
- Não, isso é ser honesto.
- Ser corajoso é reconhecer essas limitações e se arriscar mesmo assim."


"Você não está se dando uma oportunidade de ser feliz. Quando diz que não entra em um relacionamento sério, está só evitando o problema. Não está preparado para se arriscar. Isso não é ser corajoso."

"Eu sei o que me faz feliz. Eu sei o que quero."

"Você me fez ver as coisas de um jeito diferente. Sou feliz porque você me faz feliz. (...)
Talvez o amor seja tão simples quanto fazer a outra pessoa feliz."

"Amanhã seria outro dia, quando ela teria que aguentar o peso da perda."

"A gente forma um bom time."

"-Você não pode dizer que ficou com saudade de mim. Você fez uma escolha.
- E se eu errei?
- Percebi que sou uma mulher do tipo tudo ou nada.
- O que você quer dizer?
- Quero um relacionamento sério. Quero permanências, promessas, exclusividade."
(Achei bem corajosa.)

"No dia do nosso casamento, quero dar à minha noiva.... o sol, a lua e as estrelas. Mostrar que ela faz do meu mundo um lugar mais feliz e que minha vida é infinitamente melhor só por estar nela."

"- O que eu faria sem você?
- Você estaria ótima."

"Eu não tem mereço, mas sei que você me ama, e eu aceito isso."

"- Eu posso fazer mais que isso.
- Por quanto tempo?
- Que tal para sempre?"


Até a próxima postagem!
Semana do saco cheio é para isso também:
um tempo que eu precisava para colocar mais 
uma postagem em dia. E tem mais livro lido
vindo por aí. 


domingo, 4 de outubro de 2026

2083 de Vicente Muñoz Puelles

Foi em 2021 em que a escola recebeu a coleção de livros que contava com 2083 e demorei 5 anos para ter minha curiosidade despertada. Voltei a dar aulas para o sexto ano depois de um longo tempo e, prestes a terminar o livro que é um sucesso entre eles: Nem tão sozinhos assim, de Ângela Carneiro; uma aluna - Ana Júlia Rodrigues dos Santos - sugeriu o livro em questão. Ela também não conhecia ao certo a história, mas comentou com certo entusiasmo que despertou a curiosidade da leitora aqui que pensou: por que não?

O mais incrível é que tudo foi tão coerente com o final da outra história que parecia que este era, justamente, o livro certo para dar sequência às aulas de leitura. No epílogo, quando Joana folheia o caderno da Bisá, percebe que há duas páginas coladas. Ao separá-las, encontra uma carta dirigida ao futuro, que diz, entre outras coisas:

"Até mesmo livros serão coisas do passado: tudo virá pela televisão. Será que perdi meu tempo escrevendo estas receitas? Não, não perdi o meu tempo. Fiz de meus dias o mesmo que fiz com essas páginas: preenchi da melhor maneira possível.

Então, futuro, venha!"

E o futuro veio na obra 2083, onde conhecemos David e seu pai que vivem em um tempo em que livros não mais existem como já previra Bisá na obra anterior. O filho nunca vira um, e o pai guardava a sete chaves um livro de seu avô, que se desfaz quando David o tira do lugar em que está conservado. Tudo é tecnológico, inclusive o cachorro de estimação Nove. Não é difícil pensar em um mundo assim, quando estamos tão envolvidos com a Internet, Inteligência Artificial, pensando cada vez menos e vivendo o mundo aos cliques, postagens, fazendo compras on-line, conversando mais pelo WhatsApp do que pessoalmente.

O pai de David, chamado de Pa, trabalha em uma Bibliotravel, uma agência de viagens ao interior dos livros. Achei a ideia simplesmente incrível! Na obra, existem duas formas de realizar essa viagem. A primeira é por meio de um implante, que transfere para a memória do viajante o programa do livro escolhido. Nesse caso, a história deve ser vivenciada até o fim, com pouca autonomia para alterar o contexto original. A segunda acontece por meio da conexão de estimuladores sensoriais à pele, que transmitem ao sistema nervoso todas as informações contidas no livro. Essa modalidade oferece mais liberdade ao viajante, que pode modificar detalhes da narrativa e até sair dela quando desejar.

Escolhendo a segunda opção, viajamos com David para várias histórias, e, ao entrar no livro, ele passa a ser algum personagem, não um mero observador da história. 

A primeira é a Bíblia e há um detalhe de que gostei muito. O menino tem certo receio de entrar na história e ser Deus, mas não há essa possibilidade. Acharia muita pretensão se tivesse.

Da Bíblia, ele escolhe o Primeiro Livro de Samuel que conta com a história de Davi e Golias, e assume o papel do próprio Davi, mas resolve sair dela quando teria que cortar a cabeça de Golias. A passagem despertou minha curiosidade, e cheguei a pesquisar a história bíblica para verificar a semelhança entre o texto original e a narrativa apresentada na obra, a qual é mesmo fiel.

A cada história que ele viaja, volta cansado; e eu, como leitora, também. Descansei depois de cada uma delas.

A próxima aventura foi entrar na Ilíada, com um acréscimo da Odisseia. Dessa vez, nosso menino assumiu o papel de Sinon, o espião grego, cuja missão era fingir que havia sido abandonado pelos companheiros e, assim, convencer os troianos a levar o Cavalo de Troia para dentro da cidade, como oferenda à deusa Atena.

Mas, dessa vez, ele decidiu mudar completamente o rumo da história. Não conseguiu sustentar a farsa, contou a verdade aos troianos e acabou fazendo com que eles descobrissem o plano dos gregos. O resultado foi uma reviravolta completa: os troianos venceram a guerra e todos os gregos que estavam escondidos dentro do cavalo de madeira morreram. Uma pequena mudança na narrativa original foi suficiente para transformar completamente o desfecho de uma das histórias mais conhecidas da literatura.

A viagem a Dom Quixote ganhou meu coração, que tive vontade de ler o livro. Fui surpreendida ao ser presenteada pelo meu namorado no final das férias de julho enquanto tomava sol.

Dessa vez, David lê cinco capítulos de Dom Quixote pela Cosmonet, diverte-se com a história e decide viajar para dentro dela. Ao chegar, passa a ocupar o papel de um personagem secundário, descrito como um “moço de campo e praça”, que fazia de tudo um pouco. Acompanha um episódio em que os livros de Dom Quixote seriam queimados, pois sua loucura era atribuída à leitura dos antigos romances de cavalaria.

David tenta impedir que isso aconteça e chama Dom Quixote para alertá-lo, mas acaba provocando ainda mais confusão. O fidalgo, tomado por sua imaginação, julga que aqueles que estão diante dele são feiticeiros e parte para a luta. Mais adiante, David presencia outra de suas aventuras: Dom Quixote investe contra os moinhos de vento, convencido de que são gigantes, e se desgasta em mais uma batalha. Em seguida, ao encontrar dois frades, também os ataca, acreditando que eles haviam raptado uma princesa.

David sai da história quando encontra Dom Quixote completamente estropiado, com a orelha machucada, e deixa aquela viagem com a sensação de ter vivido alguns dos episódios mais conhecidos da obra. Sente-se agradecido por descobrir que Sancho era, de fato, um fiel escudeiro de seu fidalgo.
Estou lendo Dom Quixote e encontrei no livro os episódios narrados em 2083, exatamente como descritos na obra. Foi interessante perceber esse diálogo tão direto entre os dois livros e, de certa forma, acompanhar a aventura de David enquanto eu mesma percorria as páginas de Cervantes.


A próxima viagem é por David Copperfield, uma obra que me trouxe uma lembrança curiosa: ela foi leitura obrigatória no ensino fundamental, quando eu estudava no Colégio Objetivo. Naquela época, porém, eu não gostava nem um pouco da obrigação de ler o livro para depois responder às perguntas da tarefa. A resistência era tanta que, passados tantos anos, não me lembro absolutamente nada da história. O que ficou na memória foi apenas uma capa roxa.

Entretanto, viajar pela história não foi uma experiência ruim. David entra nela como David Copperfield. Acompanhamos de perto a infância marcada pela perda do pai e pela chegada de um novo companheiro da mãe, que não gosta do menino e passa a maltratá-lo. A mãe, submissa e sem forças para enfrentá-lo, não consegue impedir os castigos.

David deixa a história quando vai ao cemitério chamar pelo pai. Ao retornar da viagem, porém, a experiência parece despertar nele uma lembrança afetiva: ele se recorda de sua própria mãe, como se, de alguma maneira, tivesse vivido também um reencontro com sua Ma. 


A última viagem é à uma novela Primeiro Amor, porque David sentia uma necessidade de amar alguém.

É nessa história que conhece Zenaide, por quem se apaixona. A mãe dela também demonstra grande apreço pelo jovem, e os dois chegam a conversar sobre literatura. Em uma dessas conversas, ela se refere a Dom Quixote como “o mais prazeroso do mundo” e a seu protagonista como “o homem mais nobre”.

Em determinado momento, David, agora Voldemar, salva a cachorrinha Fifi de uma carruagem que passa em alta velocidade. É justamente nesse instante de tensão e impulso que acontece o primeiro beijo entre ele e Zenaide, tornando a experiência ainda mais marcante. Afinal, David havia entrado naquela história em busca de amor e acaba vivendo, de fato, o seu primeiro encontro com esse sentimento.

Foi o livro no qual viajou mais tempo, por 9 horas e 11 minutos.


Achei fantástica a ideia de viajar nos livros, de vivenciar de verdade, pois transforma a leitura em uma experiência imersiva, permitindo não apenas conhecer uma história, mas habitá-la. 

Às vezes, a leitura me envolve de tal maneira que tenho a estranha sensação de já ter assistido ao filme daquela história. As cenas se formam na minha imaginação, os personagens ganham rosto, voz e movimento, e, por alguns instantes, a fronteira entre aquilo que li e aquilo que vi parece desaparecer. 

Trata-se de uma obra cuja temática central são os livros e que nos convida a refletir sobre o futuro da leitura. Será que ainda teremos livros no futuro? Será que continuaremos a ter acesso às histórias clássicas que atravessaram gerações e proporcionaram a tantos leitores viagens inesquecíveis? Mais do que imaginar um mundo sem livros, 2083 nos faz pensar no que perderíamos se eles deixassem de existir.

Eu que não gosto de livros de ficção, devo dizer que me surpreendeu, inclusive o desfecho. Achei de grande sacada. E o melhor foi lê-los com uma sala, em especial, que compreendeu o final sem que eu mencionasse nada. É essa a aula de leitura em que acredito. Que não é preciso pegar determinado exemplar para realizar tarefas, responder perguntas, testar a memória... O livro foi feito para ser lido, simplesmente pelo prazer de ler. Pode ser que meu aluno não se lembre o nome do protagonista, mas sei que um deles não esquecerá do Pa, que outro lembrará do livro que desapareceu, que algum ficou pensando no cachorro que viajou na história, outra lembrará da bela Helena, e há ainda quem se lembrará de Davi e Golias. Cada um tem um momento com o livro e ele acaba significando de uma forma singular durante a leitura.


2083 é a dica de leitura em doses múltiplas, pelas referências que apresenta em seu enredo. Não encontrei nenhuma inadequação para ler com o 6° ano. O vocabulário que apresenta uma ou outra palavra que precisa ser esclarecida. É pertinente para qualquer idade. Eu, nos meus 42 anos, adorei.

Por qual livro que você gostaria de viajar pela Bibliotravel? Deixo esta pergunta para você, meu leitor, enquanto penso qual eu gostaria....

SELEÇÃO DE TRECHOS...

"É um homem de guerra desde o seu nascimento. Veio ao mundo com uma lança na mão e uma espada na outra."
(Referência a Golias. Mas eu tenho outra.)


"Aprendi que, quando alguém lê um livro, relaciona continuamente o que está lendo com o que já leu ou com o que sabe, de modo que vai mudando enquanto lê e, ao mesmo tempo, vai acrescentando detalhes ao livro, como uma paisagem."

"Se há um objeto realmente interativo, é o livro."

"Outra coisa que aprendi é que o leitor também pode ir modificando seu ponto de vista à vontade."

"Os bons livros foram escritos para despertar as pessoas, para sacudir suas consciências, para ajudá-las a se questionarem."

"- Nunca saí com uma garota, a não ser em grupo. Não sei como tratar as meninas, não sei o que é preciso fazer para gostar delas, não sei nada delas...
- Não tem muito que saber. No fundo, não são tão diferentes. Basta se deixar levar pelas emoções e ser você mesmo."

"Convém que você seja amigo dela, se quer ser meu amigo também."
(Referindo-se a cachorrinha de estimação.)

"A vida é longa. Somente aos jovens ela parece curta."

"Se um livro é como um sonho, e ao nos darmos conta de que sonhamos, despertamos, então o que acontece quando se descobre que toda a sua existência se reduz a uns capítulos?"
(Para refletir sobre a vida.)

"Quando viajamos por um livro, somente nos relacionamos com os demais personagens enquanto permanecemos no seu interior, como um deles. Se voltasse ao presente, não deixaria nenhuma recordação, nenhuma marca. Ao abandonar o livro, seria como se eu nunca tivesse estado nele."
(Isso me faz pensar que é o que ocorre quando me esqueço completamente do que li.)


"Sempre pensei que, quando alguém pede um livro, é porque precisa, e que esse desejo deve ser satisfeito."

Até a próxima postagem!
Hoje dia de eleição presidencial
e aproveito para atualizar meu Blog,
enquanto aguardo o resultado do meu time Brasil.
Parece Copa do Mundo, mas há muito mais em jogo.
Espero que eu possa comemorar,
como tantos brasileiros, que esperam por isso,
que vestem a mesma camisa verde e amarela.
Que possamos voltar a acreditar em um país melhor!
Demorei, mas atualizei. Como diz um verso de um poema
de Vinícius de Moraes:
"Meu tempo é quando."



sábado, 27 de junho de 2026

Quando dois corações se encontram - Clara Benicio

De onde surgiu este exemplar? Se não me engano, da última Bienal em São Paulo, onde meu celular ficou para trás, e a história veio comigo.

O livro conta a história de Yasmin que conhece Sam quando vai em busca de flores para a festa de bodas de pérola dos pais (30 anos de casamento). Ela não se acha preparada para essa escolha, não acredita ter sensibilidade para identificar o arranjo ideal para este momento. Sam é que irá mostrar o caminho e, em meio a esse encontro ao acaso, nossa protagonista vai observar mais do que flores, mas irá perceber os diferentes significados do amor. Entre conversas, descobertas e emoções inesperadas, Yasmin embarca em uma jornada de autoconhecimento que transformará sua maneira de enxergar a si mesma, sua família e os laços que unem as pessoas.

Mesmo com o medo de iniciar um relacionamento - um sentimento que acredito ser comum a todos nós - existe a coragem de aceitar a transição entre ter o controle da própria vida e passar a compartilhá-la com outra pessoa. Afinal, amar também significa abrir espaço para o imprevisível, para a vulnerabilidade e para a construção conjunta de uma história.

A história entre os dois acontece da forma mais doce até o capítulo 5, sem nenhum obstáculo, o que dá certa preguiça de acompanhar o enredo. No capítulo seguinte eles se casam e seguem vivendo a vida perfeita.

Tudo desanda a partir do capítulo 7. A mãe de Sam morre, depois o pai de Yasmin. O luto os une, mas os conflitos só crescem: a mudança de trabalho que leva Sam para Ipu, Yasmin engravida, eles retornam a Fortaleza e Sam parte. A perda inicial vira uma sequência de rupturas.

Quando Yasmin foi ao hospital para ver Sam, senti que eu a acompanhava, porque também estava no hospital acompanhando minha mãe devido à pressão alta. E ali, na sala de espera, eu também recebi a notícia de Sam.

A partir desse momento é que o enredo cresceu aos meus olhos e ganhou forma, significado. Junto de Yasmin, tivemos que encarar a realidade, dar sequência à vida, recomeçar. Há um quê de beleza em um recomeço, uma força sobrenatural que só pode vir de Deus que me fascina.

Todos os familiares ficam muito preocupados com a forma de nossa protagonista encarar o luto, o qual parecia um beco sem saída, um caminho sem luz.

Cada um tem uma forma de sentir e lidar com a despedida. Aproveito a oportunidade para abrir um parênteses sobre velório. Nunca gostei de entrar, de ver a imagem. Depois de tanta gente que se foi, acabei me acostumando a esse ambiente, mas ver a pessoa, aproximar-me, tocar... foge ao meu alcance. Não há mais ninguém ali, aquela imagem inerte não é mais da pessoa que conhecíamos. Ela deixa de estar ali e passa a viver dentro da gente. Assim que eu penso, e isso me conforta e me traz paz.

Mas, recentemente, ao me despedir de uma tia querida, tive a graça de encontrar o caixão fechado e pensei que deveria ser uma regra a ser seguida, devia ser parte dessa cerimônia. O momento se torna mais bonito e menos dramático. Não há aquele aperto de fechar o caixão, a despedida final. Que bom seria se cada um guardasse do seu ente a imagem em vida, de movimento, cor, e não da brancura, da opacidade, de uma maquiagem sem luz, de uma roupa que a gente sabe que não vai com a pessoa. O corpo material é da terra e para ela será devolvido. O espírito segue livre para a eternidade e há de ser recebido por outros que já fizeram a passagem. 

Fecha-se esse parênteses. Mas ler um livro é também trazê-lo para realidade, significá-lo. É isso que faço no Blog, faço a minha análise, somo com a minha vivência e ofereço como reflexão para meu leitor, como dica de leitura.

Voltando à história, foi preciso que Melissa, com sua sensibilidade e amor de irmã, deixasse sua família de lado para que a resgatasse, para que a inclinasse para outro ponto de vista, mudando seu olhar, ampliando seu horizonte. Às vezes só quem está de fora consegue mostrar e acaba sendo a luz.

Melissa entrega a ela um caderno e pede para registrar os sentimentos, sugere que se apresente a ele, que o use como forma de se expressar. Lembrei da minha amiga Lucineia, que deste plano também seguiu viagem. Ela me disse uma vez para eu escrever, como se dialogasse com o homem dos meus sonhos, quando eu me senti perdida. A ideia era como desse caderno, para que eu me encontrasse e o encontrasse também. (Não cheguei a fazer.)

Depois disso, ela fará um plano de viagem com a irmã, primeiro à beira-mar, em contato com a natureza; depois para uma cidade de mais movimento, para que tenha contato com novas pessoas.

Aos poucos Yasmin vai encontrar o caminho. 
Nunca me esqueço do que uma professora de yoga muito querida disse uma vez: o caminho de volta para casa é para dentro. Yasmin vai percorrer esse caminho e vai se permitir amar mais uma vez. E, para quem acredita em coincidências, um homem que foi militar. Eu falo que às vezes a arte imita a vida.


E não pense, leitor, que será só uma fase de alegrias e descobertas, mas também de desafios, provas, separações e decisões.

E, daquelas surpresas ao ler, de repente você se depara com um conselho que é uma oração: que diz mais à sua vida do que à personagem. Então você para, e entende os sinais. Como diz minha querida Regina, Deus é desconcertante.

"Apague as luzes, respire fundo algumas vezes. Deixe a mente descansar um pouco. Peça ao Criador que acalme seu coração durante o sono e que, se possível, mande respostas. Quero que pense no que você gostaria de saber pela manhã e, ao acordar, vai se sentir melhor e, talvez, saber qual o caminho a seguir."

E, no final da história, sabe o que acontece? Ela se despede do caderno, agradecendo por atravessar todos esses anos. E, mais uma vez, aparece uma situação semelhante a que eu vivi - eu também me despedi de minha agenda, que me dediquei por muitos anos.

Vale a pena a passar os primeiros capítulos e seguir com a história. No livro "A menina que roubava livros" diz na contracapa, quando a morte conta uma história, você deve parar para ler. Eu diria, nesse caso, que quando há uma amor, vale a pena ler a história e vivê-la também.


"Quando dois corações se encontram, eles apenas se reconhecem. E todos os caminhos sempre levarão a esse encontro."

 SELEÇÃO DE TRECHOS...

"Uma pessoa que acredita em amor eterno tem a sensibilidade necessária para escolher as flores que vão celebrar esse amor."

"Flores têm personalidade. São seres vivos que alegram, perfumam, colorem e enchem de vida um ambiente."

"A amizade é assim mesmo: o amor mais puro, que existe em completa harmonia mesmo nas diferenças, entre pessoas com propósitos de vida distintos, porém semelhantes na alma e no coração."

"Eu podia dizer que era tudo bobagem, que não havia acontecido nada, mas sabia que não era verdade. (...) Não sabia nada dele, se tinha namorada ou se gostava de alguém. Eu não deveria criar expectativas."
(Quem nunca...)

"Poderia dizer para ir com calma, para não criar tantas expectativas, mas não vou dizer isso. Tente construir essa história. Se não der certo, vai ter valido a pena viver esse amor. Muitos passam pela vida sem conhecer esse sentimento tão sublime. Então ame. Mesmo que seja passageiro."

"Ele não era de falar muito, talvez por sempre ter tido uma educação militar."

"- Obrigada
- Pelo quê?
- Por tudo. Por você estar aqui, mesmo depois de um dia tão difícil, por me dar conforto, paz, alegria."

"Essa história está pronta para começar, e você precisa seguir os sinais, fazer sua parte."

"Sentia que minha vida havia tomado um novo rumo. (...) Isso que acontece quando duas almas se reconhecem e dois corações se encontram: nada pode separá-los."

"Sentia como se Deus, por meio da natureza e daquele momento de extrema paz, abençoasse nossas vidas, nossa união."

"A beleza da natureza de Jericoacoara não é algo que se possa explicar ou descrever; é preciso vivenciar."
(Preciso vivenciar.)

"Não havia lugar melhor no mundo para mim que não fosse meu lar."

"Espero que a senhora fique bem um dia. Uma dor assim às vezes pode não passar."

"Percebi que existiam seres humanos que sabiam se calar quando não havia nada a dizer, e que o conforto de um gesto valia mais que muitas palavras."

"Seja forte, você consegue superar a saudade."

"Você vai encontrar o caminho de volta; só precisa acreditar na força que existe em você, reencontrá-la em seu coração."
///
"Preciso que você viva, para que nossa história tenha valido a pena, para que eu possa seguir em paz."

"Nós vamos para casa juntar nossos cacos."

"Restavam apenas as lembranças de um mundo que era só nosso."

"Naquele momento, ao encerrar um capítulo da minha vida, eu era só vazio. Sem esperança, sem fé, sem paz, eu era apenas dor."

"Obrigada por não desistir de mim, quando eu mesma quase desisti."

"Percebia que a minha energia se renovava, eu reencontrava meu equilíbrio, como se estivesse fazendo as pazes com o mundo."

"É bom estar aqui e poder me lembrar dele assim, fazendo algo de que ele gostava."
(Penso no meu pai, principalmente quando saio de moto...)


"Menos lágrima e mais disposição."

"Sinto-me feliz por enfim poder falar dele abertamente, da pessoa bonita que sempre foi; falar sobre a falta que me faz e do quanto o amo e sempre vou amar. E ouvir também o quanto ele era amado."

"Eu já tive esse olhar. Com o tempo a gente aprende a conviver com a dor e segue em frente. E às vezes consegue até ser feliz de novo, acredite. Não por concreto, mas é possível."

"Enquanto estou aqui, sinto que tenho que viver da melhor forma que posso."


"O importante é que esteja bem, que reencontre seu equilíbrio e sua paz."

"Você precisa seguir em frente. Está na hora de recomeçar. Sua história neste mundo ainda não acabou, e a nossa sempre vai existir em nossos corações."

"Gostaria que aquela casa tivesse novas histórias."
(Pensei no nosso projeto do Cantinho da Vó)

"Algumas pessoas vivem bem assim, sozinhas, e encontram outras formas de felicidade, não necessariamente ligadas a relacionamentos amorosos. Talvez eu seja uma delas, e estou bem assim, acredite."
(Lembrei de uma conversa que tive com meu pai um dia. Ele me disse assim: tudo bem se você não casar... kkkk É, pai, tudo bem. Talvez eu não me case nesta vida, mas pode ser que eu não fique sozinha também.)


"E sempre vai valer a pena. Só por ser amor, já vai valer a pena."
 
"O amor é uma dádiva de Deus."

"Ele sempre tem razão. Por instinto ou sabedoria."
(Eu conheço gente assim.)

"E você, se gostar desse rapaz, vai ter que aprender a conviver com as lembranças e tudo o mais em torno da história."

"Acredite, nada é por acaso."

"Talvez a grande história  de amor de vocês seja esta, e não a do passado, porque esta é a que provavelmente vai trazer a paz de que precisam."


"Ninguém merece passar por tanta dor."

"Você só precisa ter coragem de enfrentar e aceitar a felicidade que a espera. Não deixe o amor morrer em sua vida. Viva esse amor, ainda que por um minuto. Um minuto de amor verdadeiro, mas plenamente vivido, sempre será uma eternidade. Só faça esse tempo eterno."
(Que linda declaração. Se daqui só se leva o amor, eu vou com a bagagem cheia.)

Até a próxima postagem.
Estamos em clima de Copa do Mundo,
acreditando em nossa seleção 
e aguardando o próximo jogo, 
com esperança de mais uma vitória 
para o povo brasileiro.
Quero aproveitar a data para a postagem
em que o blog completa 16 anos.
E vamos seguir colocando em dia...
rumo ao hexa que a gente não sabe se vem e
rumo aos 17 anos de blog que devem chegar.