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quinta-feira, 30 de julho de 2020

O voo do Hipopótamo

Tive curiosidade de ler esse livro não pelo título, obviamente, mas por ter conhecido o primeiro capítulo em um didático de Português.
Na primeira vez, apresentei o capítulo e pedi para que os alunos fizessem a continuação, surpreendendo-me com as produções, uma vez que o capítulo termina com um suspense.

Conta a história de Túlio, um adolescente que mora ao lado do cemitério e morre de medo só de pensar nesse universo fúnebre. E um dia, ao passar pelo portão, ele escutou um violino.

A partir desse ponto, era proposta uma criação. Sempre comentava com os alunos, que adoravam a história, sobre o título do livro que não despertava qualquer interesse - O voo do hipopótamo - e sobre o preço do livro que, quando pesquisado, não era muito barato. Então resolvi ficar apenas com a curiosidade que era despertada a cada ano ao reler o mesmo capítulo "Os Vizinhos".

Quem toca violino no cemitério é Virgília, uma adolescente diferente daquelas com as quais Túlio convivia. Uma menina que tinha sua forma de vestir, que tocava um instrumento incomum e que lia um livro na íntegra. Isso mostra que uma identidade própria, inteligência e cultura chamam atenção até de um menino acostumado a jogar vôlei com a molecada.

O título do livro faz referência a um capítulo que mistura lucidez e loucura, em que Brás Cubas está prestes a morrer e delira. O momento é bem retratado também no filme.

O livro chegou até mim em forma de presente, no ano passado, no dia da formatura, quando fui paraninfa do 9° ano C. Foi uma grande surpresa. Para aqueles que amam, ganhar um livro é o maior presente e, vindo de meus alunos, ganhou um significado ainda maior.

O que posso dizer do livro é que me parece um excelente exemplar para ser lido em sala de aula. E só descobri isso por meio de uma aluna que teve essa grande ideia: Tallita...tão querida! Ela dividia essa paixão pelos livros, vivia as histórias que líamos em sala, uma artista do teatro, uma fã de poesias... Uma aluna que toda professora de Português gostaria de ter em sua sala e tão rara ultimamente. Obrigada! Foi um prazer ter sido sua professora.

Voltando ao enredo, o protagonista tem que ler Memórias Póstumas de Brás Cubas para a prova do colégio e apresenta interesse ao ler o livro na íntegra e não apenas resumos, como a maioria de seus colegas. Isso porque conheceu Virgília, uma aluna nova  tão diferente das meninas com as quais convivia e por isso tão interessante. (Sou obrigada a concordar...)


Conhecemos melhor a história de Machado de Assis, ao passo que descobrimos a de Virgília. As duas obras dialogam de forma bastante agradável, envolvendo o leitor.

O senhor Quincas é o grande responsável pela análise crítica da obra ao acompanhar a leitura dos adolescentes. É uma bela forma de conhecer o clássico. E aproveito para indicar também o filme, que é muito fiel ao livro e aos trechos abordados também em "O voo do hipopótamo".
Costumo trabalhar com as turmas de 9° ano e acho bastante enriquecedor. E acreditem: eles adoram!

SELEÇÃO DE TRECHOS...

"Memórias póstumas é uma obra muito diferente de tudo. Original e única. E Machado também não é só realista. Ele é um gênio! Gênio não tem classificação."


"(...) Romance nenhum pode contar tudo, nem de uma história, nem de um personagem."

"Um coveiro sempre tem onde cair morto."

"Alguém precisa, na hora em que as famílias e os amigos mais estão sofrendo a perda, cuidar de quem parte. E, depois, alguém precisa zelar pelo bom estado de suas sepulturas, respeitosamente."


"(...) Restavam os ossos, que não emagrecem nunca."
(M.P. B. C)

"(...) Hipocrisia (...) é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia."
(M.P. B. C)


"Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma (...)"

"Talvez fique apenas naquela cena do enterro do Brás Cubas, em que Virgília repete para si mesma: 'Morto, morto!' Lembra-se? Era como se ela tentasse se convencer de que, agora, não havia mais jeito, e que eles, se haviam se amado, de certo modo desperdiçaram a chance da felicidade de viverem juntos."

"A gente é que estraga o que tem na vida."

"É que eu só faço as coisas que tenho vontade, sem ficar pensando se é o que todo mundo faz. O mundo é tão cheio de coisas pra gente experimentar..."


"Tudo que eu faço hoje é para ver quem eu quero ser."

"(...) só as grandes paixões são capazes de grandes ações, e ele não a amava tanto que pudesse ir buscá-la, se ela estivesse longe."
(M.P.B.C.)


"(...) o maior defeito do livro és tu, leitor."
(M.P.B.C.)

"Talvez se amem, quem sabe? Do jeito deles, é possível que se amem. Mas estariam dispostos a enfrentar a condenação do mundo que prezam tanto? Daí, a farsa. O senão."

"A gente vive desistindo do que é importante na nossa vida por coisas que outras pessoas achariam... besteiras. Não é?"

"Tem gente que diz que Machado de Assis é o mais cruel dos escritores. Porque realmente sabe destruir um personagem. Outros dizem o contrário: que é um escritor com uma capacidade sem limites de amar seus personagens, amá-los gratuitamente, mesmo que eles não o mereçam, mas porque... talvez sejam suas crias!"

"Os personagens são mais para o patético, eles nos causam compaixão. Ao mesmo tempo, constrangimento. Porque reconhecemos a humanidade deles, algo que os torna nossos semelhantes, no seu ridículo!"


"-Às vezes, mesmo a gente se gostando, a separação acontece.
(...)
- Principalmente quando a gente deixa acontecer. São as 'molas da vida'. Quando as deixamos soltas, não tem perdão. E justamente as coisas mais preciosas são aquelas que podem acabar. Que não são finitas. Que um dia, uma hora, se vão. É o que as torna preciosas enquanto as temos, inestimáveis! É por isso que temos de zelar pelo que a vida nos oferece de bom!"

"(...) ele tinha essa necessidade de abrir o livro, como a gente geralmente quer se ver num espelho, depressa, depois de passar por um corte de cabelo, para checar o que mudou. Ele chegou a pensar nisso, que o livro, aberto, era como um espelho. Só que estava embaçado."

"Num momento de simpatia"
(Gosto de pensar que pode ser uma legenda de foto)

"O vício é muitas vezes o estrume da virtude."
(M.P.B.C.)

"Onde está a pena da galhofa, está também a tinta da melancolia..."
(M.P.B.C.)


"(...) saiu da vida às escondidas, tal qual entrara."
(M.P.B.C.)

"Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."
(M.P.B.C.)

"Há coisas que se não podem reaver integralmente."

"(...) a elite abastada daquele tempo. Uma elite que cultivava o ócio e desprezava quem tinha de ganhar a vida dando duro. Que poderia até construir um país melhor, mais grandioso, mas que não teve nem talento, nem preparo, nem imaginação, nem muito menos vontade de trabalhar para isso. Agora veja nosso Brás Cubas, um legítimo filho dessa elite. Mesmo tempo todas essas limitações de caráter, Brás Cubas é dono. É o dono nessa história. Ele recebe dado, de mão beijada, o direito de narrá-la."

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
(M.P.B.C.)

"Não sabia que o que a gente perde, e sabe que perdeu porque deixou perder, dói tanto... Que a gente pode chegar ao fim da vida e dizer que o que fez no mundo foi não fazer coisa nenhum, mas... Mas, de repente... de repente... acontece. Coisas assim acontecem! De repente a gente vai ver e tanto deixou se perder que sobrou um... Das negativas. E só!"

"E a plateia aplaudiu, porque nessa hora do beijo sempre dá uma vontade na gente de bater palmas."

Até a próxima postagem. 
Ainda seguimos na versão eu de cá.
Metade do ano já se passou e ainda
consigo ver 2020 como um presente.
A pandemia tem nos dado tantas lições,
além de tarefas que envolvem reflexões e mudanças.
Lembre-se de que, quando uma porta se fecha,
uma janela se abre.
Aproveite a nova vista e veja quão bela ela é.


sábado, 27 de junho de 2020

O Construtor de Pontes - Markus Zusak

O Construtor de Pontes foi indicação de um grande amigo e companheiro de trabalho, Marcelo, o qual me disse que havia tempo que não tinha lido um livro tão bom, e que não era qualquer pessoa que merecia uma leitura desse nível. Atrevi a me presentear e comecei a ler pouco antes da tal quarentena devido à pandemia do coronavírus. (Dá até medo de escrever esse nome, porque de invisível me parece uma ameaça real e palpável).



Então, em casa, enquanto tomo Sol no meu quintal, entrego-me à essa leitura que, realmente, é diferenciada. Gosto da linguagem usada pelo escritor, a forma com que se expressa, que cria imagens, é sensacional, diferente de tudo. E as idas e vindas da história que se cruzam, fecham-se e nos entregam um retalho a ser costurado mais a frente... é de uma maestria! 



À princípio, confesso que não estava entendendo muita coisa. Aquelas crianças que eu nem sabia ao certo se eram crianças, os nomes dos bichos.... Histórias paralelas, o assassino. Foi quando terminei a parte 1 que alguma coisa passou a fazer sentido. Na parte dois, podemos compreender melhor e ao chegar na página 80 chorei mais de dez lágrimas.



Sem dúvida, um livro intenso e intrigante, que nos mantém enrolado naquele enredo, tentando encontrar os fios condutores de cada história, de cada personagem.

O capítulo - A ponte de Clay - explica o título do livro dado em inglês - bridge of clay, página 117. Gosto de sempre há um indício do título, um lugar de maior explicação e ligação com o todo. E aqui está.

A ponte de argila, a ponte de Clay. (duplo sentido)
A ponte é bem mais do que uma construção material, mas um elo familiar. Ao construí-la, Clay também constrói novamente essa ligação com o pai - o qual é a base da família Dunbar.  E, depois de construída, o menino está preparado para a grande travessia. 
Quanto mais são estabelecidas as ligações do texto, mais admiro a genialidade da obra e seu significado.


Há tantos trechos que considero intensos, como o fim do relacionamento de Michael  e Abbey... páginas 169/170, entre outros que nos faz sofrer junto deles. Lidar com perdas não é uma tarefa nada fácil, seja ela como for.


"- Talvez nós não sejamos... uma boa combinação, ao contrário do que acreditávamos.

- Mas eu te... (...) tanto.

- Eu também., mas talvez não seja o bastante."

O que me encanta muito nessa história é que aqueles meninos  que são moleques em tantas situações, valorizam a cultura, têm gosto pela leitura de clássicos principalmente.  A maior herança da mãe - que deixou Mozart e Beethoven, o grande legado do pai com Michelangelo. Os nomes dos bichos de estimação relacionado a grandes obras nos mostra que a cultura está absorvida e que, independente da situação, todos podem ter acesso a ela, desde que tenham exemplos a serem seguidos.


"Os livros, sabíamos bem, eram sagrados."


Outra característica dessa narrativa fragmentada são os indícios deixados para que o leitor os guarde e aguarde o significado, a ligação com o todo. 
Um ponto muito marcante foi o pregador que passa boa parte do livro no bolso de Clay e ele o segura firmemente. Deixou-me bastante intrigada o tal do pregador... e segurei firme com Clay até a revelação inesperada para mim. Gostei, era como se o pregador permitisse estar junto de alguma forma, estar na presença. Sem mais detalhes para não dar spoiler.


Em resumo, trata-se de um livro que foi escrito em 13 anos pelo mesmo  autor de "A menina que roubava livros", Markus Zusak, o qual merece, sem dúvidas, um leitor que acompanhe essa obra com dedicação e admiração. Não é uma leitura despretensiosa, mas que exige, acima de tudo, olhos e ouvidos atentos. 


SELEÇÃO DE TRECHOS...

"(...) quem tinha que ir foi e quem tinha que ficar ficou."

"Escrever é sempre difícil, mas fica mais fácil quando se tem algo a dizer."

"O calor era tão constante, tão palpável, que dava para carregá-lo nos braços." (E dessas imagens, desse uso da linguagem que me encanta)


"Bons cemitérios dão bons vizinhos."

"Ela sorriu daquele seu jeito intrigante de quem encara tudo de frente."

"Embora a maioria das pessoas visse o lugar apenas como mais um cenário de abandono urbano, para ele era recordação, memória."

"Não devemos brigar quando alguém está de partida."


"Foi o que melhor amei, o que mais amei."


"Ele tinha uma colação de lugares sagrados."

(Gostei. Quais são os seus?)



"(...) éramos diferentes versões da mesma coisa."

"(...) havia razões para partir, e razões para ficar, e eram basicamente as mesmas. Ele estava preso em um ponto no meio do processo - de destruir tudo que tinha para se tornar o que precisava ser."

"(...) vez ou outra uma semana vinha lembrar que o verão se aproximava."

"-Não faz isso. Não vai, não me deixa... mas vai."
(...) Ela fez questão de deixar claro o tamanho da saudade que sentiria dele, mas que também esperava - na verdade, exigia - que ele fosse fazer o que tinha que ser feito."

"Os anos chegavam e partiam."

"Era seu Everest diário."

"Queria poder levar crédito pela frase.
Tudo que ele construiu na vida era feito não apenas de bronze ou de mármore ou de tinta, mas dele... e de tudo que havia dentro dele."

"Dizem que quem brinca com fogo acaba se queimando, mas quero te dar o isqueiro de presente mesmo assim, ainda que seja só para dar sorte e para que tenha algo que o faça se lembrar de mim."

"Me desculpe pelo estado da caixa, mas algo me diz que você vai gostar dela mesmo assim. Pode usá-la para guardar algumas coisas preciosas. Mal não vai fazer. Coloque mais coisas aí e não só um pregador."

"Essa ponte vai se de você."

"Há outra forma de existir."

"É curioso pensar que, um dia, eu acabaria me casando com aquele homem."
(Com relação a quem vou pensar isso?!)

"Mulas não mudam de opinião com muita facilidade."


"O dourado nos olhos dela, um adeus para ele."

"Riram, quase sem motivo - talvez fosse só felicidade."

"A cidade estava besuntada de sol."

"Mesmo na folha de papel, ela parecia prestes a falar."

"Nunca se esqueça de onde veio (...) Ou do que você é."

"O mundo lá fora era grande demais, e as possibilidades, infinitas."

"Talvez nós não sejamos... uma boa combinação, ao contrário  do que acreditávamos."

"De muitas maneiras, acho que é verdade o que dizem: até os momentos ruins são cheios de bons momentos."

"(...) a única coisa que ficou pendurada nas vigas do teto foram fiapos de tristeza. Balançaram e oscilaram como teias de aranha, tão frágeis e, ao que parecia, sem peso algum."
Que imagem! Como é rico na expressão de um sentimento como tristeza, palpável até.

"Essa ponte vai ser feita de você."

"(...) e o que mais importa é que você tenha, construa, e que aproveite enquanto puder."

"É curioso ver como se desenrolam as confissões:
Admitimos quase tudo, e é o quase que conta."

"(...) seu maior medo não era ser deixado novamente, mas condenar alguém a ser o segundo melhor, a ficar em uma posição inferior."

"Mas lá estavam, seguindo em frente, dando o melhor de si rumo a uma linha de chegada. Esperaram a contagem regressiva, feito esquiadores no topo da montanha, e pressionaram a tecla na hora do já. O resto é história."
(Sensacional a forma que constrói as imagens, como diz as coisas mais simples de uma forma tão rica.)

"O tempo reduzido a momentos."

"(...) saíram de lá puxando pela mão a felicidade indomável e levando-na para a vida."

"Já sei por que você gosta tanto desse  livro. Ele fez tantas coisas extraordinárias. Torço para que você faça algo extraordinário por aí também. Você vai. Tem que fazer. Você vai."

"(...) não há palavras bonitas para descrever o que se passou, porque ali não havia beleza nenhuma."

"E as coisas começaram a começar."

"Há quem celebre as coisas com champanhe, ou com uma noite fora em algum lugar bacana, mas ela recostou a cabeça no ombro dele e releu a carta."
(Sobre simplicidade)

"(Ele) era como um mercadinho de bairro:
Podia ser pequeno, mas quem cruzasse seu caminho pagaria caro."

"No passado, não tínhamos como saber. Um novo mundo estava por vir."

"Ela era uma de nós"

"Quando um rapaz começa a deixar certas coisas para trás, geralmente é porque tem garota na jogada."

"É bem curioso o que acontece depois de um velório. 
Para todo lado há corpos, há feridos."

"Eles construíram dias que logo se transformaram em semanas, e semanas que se transformaram em meses."

"Fiquei cativado pelo calor do olhar dela.
Ela parecia a primeira xícara de café pela manhã."

"(...) vestia um mar de suor, uma mancha de respeito ao redor da gola da camisa." (É disso que eu falo: a imagem construída!)

"Às vezes, eu como torrada só para escrever o seu nome nas migalhas." (Fofo. Alguém faria isso pensando em mim?)

"Ele era um caminhão tendo que subir uma ladeira com uma roda a menos."

"Os jornais não falaram do sol no primeiro dia em que eles conversaram - tão próximo e tão imenso ao lado dela. Ou da luz dourada nos braços dela. Não mencionaram o som dos passos dela quando ia até as Cercanias, a forma como ela farfalhava ao se aproximar. Não mencionaram 'O marmoreiro', o livro que ela vivia pegando emprestado. Ou como ela amava o nariz quebrado dele. Mas quem precisa dos jornais, afinal?"

(Sobre o que não é registrado, a história que escapa aos fatos)



"Se tem uma coisa que aprendi, no entanto, é que se a vida continua em movimento após o fim de nossas histórias, ela ganha tração muito antes delas."

"Ele sabia melhor que todo mundo ali; certas coisas nunca passam."

"Não se devia confundir paciência com moleza, ou proteção com protelação."

"Ela agia como se conhecê-lo fosse uma espécie de privilégio - e estava certa; fico feliz por ela ter feito isso."

"As vitórias eram virtuosas, veneradas. As derrotas viravam aprendizado."

"Houve um tempo em que foi fácil ser Carey e Clay, que viviam juntos e estabeleceram uma relação de parceria."

"Um sorriso que lembrava o mar."

"Não vou dizer que você deveria seguir em frente como ela gostaria que você fizesse, mas talvez você deva fazer o que tem que ser feito. Só acho que, de uma forma ou de outra, sua vida continua."


(...) e os eucaliptos continuavam os mesmo. Estavam reunidos, esperando ali, na sombra, feito uma seleção de jogadores de coxas musculosas. Um time de árvores."


"Quando se vê uma pessoa morrer, não é só a morte dela que você testemunha."

"Àquela altura, já tinham se transformado em homens diferentes - do tipo que constroem pontes, e não do que são devastados por tragédias."

"Suas mãos eram a única prova de seu trabalho e de sua dedicação."

"A história vinha se compondo havia anos."

"Só sei que já perdi a conta:
De quanto tempo faz.
Há quantas noites estou sentado aqui, nesta cozinha que presenciou todas as nossas vidas?"

"Os bichinhos de estimação viveram para sempre, é claro - pelo menos até o instante em que morreram."

"Quando você espera, começa a se sentir merecedor."

"Um garoto Dunbar pode fazer muitas coisas, mas deve sempre voltar para casa."


Até a próxima postagem.
Há dois meses seguimos em casa.
Pouca coisa mudou até aqui com relação
aos fatos. Enquanto isso, vamos tentando nos 
tornar pessoas melhores, analisando fatos e pessoas,
observando com olhos que sentem...
Esse tempo me fez pensar em tanta coisa... 
dentre elas que eu deveria escrever um texto 
sobre o momento presente, mesmo que seja só para mim.
A escola retomou suas atividades virtualmente,
um aprendizado para todos os lados, em todos os campos.
Um tempo que nos obriga a ser mais humanos
e usarmos as ferramentas que temos em favor da educação,
e que tem me surpreendido. 

domingo, 19 de abril de 2020

Diálogos de olhos - Saulo Pessato

É com muito prazer que apresento o novo livro de quem sou fã desde quando li as primeiras poesias na escada do prédio da faculdade de Letras (PUCC) no centro de Campinas. Boas lembranças...


Dessa vez, ele vem com um novo formato: crônicas- porém há um quê de poesia, o cuidado especial com a linguagem, a escolha das palavras... Trata-se de seu terceiro filho, tão especial quanto os outros dois e se mostra nesse exemplar um cronista de gabarito, assim como é um poeta completo em seus versos. Como afirmou Graciléia Capponi Moraes:

"Saulo é, sem dúvidas, um poeta. Por isso, todas as situações que se apresentam neste livro de crônicas foram filtradas pelo olhar de poeta que lhe é inerente."


Em 2005, eu me atrevi a escrever uns versos de uma poesia chamada EUDESconheço que fala um pouco da imagem que carrego dele. O título faz referência a um dos sobrenomes de Saulo.


Seu nascimento fora sua primeira poesia.
O crescer o fez poeta,
O tempo o transformou em escritor.
Antes de rimar palavras,
Rimou a vida.
Não sei se conheci a obra,
Ou apenas um poema.

Tão superficial, e tão profundo!



Foi no final de Janeiro, como meu presente para encerrar as férias, que fui para Campinas de carro com minha mãe buscar o meu exemplar. Precisei lidar com o Google Maps, os semáforos, o tempo que fechava, e tantas memórias do centro da cidade, da rua em que morava, da faculdade, dos prédios onde vivi... Valeu cada segundo, e faltaram tantos outros... Queria ter levado meu olhar passear com mais calma...
              Saudoso Fragata ao fundo   

       Alice Cristina de tantas histórias

O prédio onde funcionava a faculdade de Letras

Acredito que não teria um título melhor para um livro de Crônicas como "Diálogos de olhos", pois esse gênero textual, em especial, parte de um olhar diferenciado, apurado, e, neste livro, um olhar repleto de poesia acerca da realidade. 

A última crônica, que carrega o nome do livro, achei triste e tão real, porque muitas vezes tudo não passa de um diálogo de olhos, e independente da situação, ele pode ocorrer e ser compreendido sem qualquer palavra.

"Mais uma vez, meu olhar cruzou com o seu e eu tive aquela sensação de que seus olhos têm durado mais do que o normal nos meus."

"Não cabem muitas  palavras nesses olhares-fração-de-segundo."


Vi minha dedicatória sendo feita na hora, porém deixei para ler somente quando cheguei em casa, para que ficasse gravada e fixada ali como algo meu, uma marca nossa desses diálogos de olhos.
Já perdi a conta de quantas vezes li e reli, como se fosse uma prova de que existimos de verdade...

A minha preferida, sem dúvidas, é "Um passeio de Harley-Davidson na caixa feia da memória", pela intensidade da história, pelo envolvimento e pelo final em grande estilo, surpreendente.

A crônica nos faz sofrer com ele calado no prédio, a ter uma antipatia por Americana, nos faz seguir com ele de moto, abrir a caixa feia da memória e dar um novo rumo a essas memórias, não em tom de vingança, mas de vitória. 
  


Acabei selecionando as crônicas em diversas categorias.

A crônica que amei foi:
- Árvore da felicidade: pela metáfora usada por meio das plantas. Fiquei com vontade de ter uma dessa para refletir sobre a vida sempre que cuidar dela.

Crônicas que julguei como lindas:
- Amizade imaginária: pela imaginação, criatividade e pureza das crianças, pelo final sensacional da crônica que nos revela a identidade de Clara e por poder ver sob a perspectiva de uma criança.

- Gotas no chão: pela imagem da mãe eternizada.

- O inesquecível primeiro-beijo que não dei: porque é tão inocente, e tão mágico, como o amor deve ser em sua essência, em suas primeiras experiências, o amor da sexta-série. A doçura, a alma de criança e tão cedo, um poeta.

- Como gatos no colo: pela intensidade de ser considerada especial e linda para alguém, um evento. 

Crônica surpreendente- categoria uau

-A infância não veste Prada: pela mensagem, pelo valor da amizade, pela grandeza de uma atitude, pelo tom de brincadeira que nos arremessa uma verdade.

Crônicas engraçadas, em que ri:

- Sinais de respeito: pela simplicidade do recém ingressado no serviço militar, por não saber como se referir a uma autoridade e não saber ao certo o que dizer em determinadas situações.

- Palavras erradas da infância: mesada: pelos trocadilhos, essa brincadeira com as palavras que o escritor faz com maestria qualquer que seja o gênero trabalhado.

- Palavras erradas da infância: umbigo: pela descrição tão clara do umbigo de algumas pessoas. Curta e me fez rir toda vez que li.

- Eu simplesmente esqueci: porque...

Entre outras, o que me permite concluir o bom humor do cronista.
- O bem de Iemanjá
- O fabuloso dia em que me caguei
- Fim do mundo cotidiano
- No idioma do caos
- Como uma boneca
- Defeito nato

Há ainda mais duas categorias:

Crônicas tristes, com uma considerável lista.

- Mateus calado
- Continuidade dos aplicativos

-Súbito
- Um médico
- Diálogo de olhos

Crônicas em que pensei: É VERDADE.

- Palavras erradas da infância: escorregadio
- A metáfora das pernas adequadas










- Amor felino

Vale a pena ler o livro, conferir essa nova versão de Saulo Pessato. Tenho certeza de que minha visão de fã da pessoa e do escritor não atrapalham o julgamento dessa obra, só enaltecem o que sempre soube... 

SELEÇÃO DE TRECHOS...

"Tivera um dia tristonho, houve partidas e adeuses. (...) Arranhou a folha branca e, por mais que ali escrevesse, não traduzia com letras, palavras ou tinta o que o coração transbordava."

"Tivera um dia enfermo, ausente de força, vida. Como outras vezes o fez, o poeta curvou-se em preces e, de joelhos colados ao solo, suplicou salvação. Entrementes, tomado de pena como que benta, batizou a folha branca com louvor, fé e orações."

"Então, aprendi que a Felicidade precisa de espaço.
(...)
Então, aprendi que a Felicidade é frágil e depende muito de nós.
(...) 
Então, aprendi que a Felicidade demanda total atenção e precisa sempre estar leve.
(...)
Então, aprendi que a Felicidade, para viver bem, deve ser compartilhada."

"Pudéssemos dar às crianças o direito de mudar seu substantivo comum, certamente iriam querer se chamar brincança."


"Criança é cria passiva, mas é também criatividade. Criança é criativa, não apenas criação."


"Eu criava, dessa forma, as minhas próprias personagens de videogame no melhor gráfico que a vida podia me oferecer, a realidade, em desafios e cenários cada sia maiores e mais interessantes. E o melhor de tudo isso é que o protagonista era eu."


"Ser criança é descobrir lambanças e levar esfrega da mãe de vez em quando.

(...) Ser adulto é descobrir lembranças e sentir saudade da mãe. Sempre."

"(...) tanto tempo havia passado sem ela comigo ao lado, mas comigo para sempre."


"(...) haverá sempre alguém com os olhos e dedos da sétima série."


"Você tem que escolher: ou ela ou eu.

(...) Fico com quem jamais me faria escolher entre duas amigas."

"Eu entendo você. (...) Discordo, mas entendo. E meu choro não é drama, não. É decepção."


"É a própria vida quem prepara dessas ironias que nos permite, se tivermos um olhar aguçado para reconhecer sua magia, acessar esses momentos difíceis e, ainda que não possamos reescrevê-los, ressignificá-los."


"A fotografia tem esse poder: registrar um momento exterior tão contrário ao interior."


"Tudo acontece pelo aplicativo, mas a vida não. A vida acontece fora.


(...) e não existe história absurda quando é muito bem explicada."


"Ela é daquelas amigas de infância que a gente conhece depois dos trinta."


"(...) se o terror une a todos, turistas e cidadãos, no idioma do caos, certamente o riso também possui esse poder."


"Chuva forte com moleque era sempre alegre e barulhenta, não tinha só som de água caindo e passando: tinha risada, gritaria e palavrão sobre objetos fugidios na enxurrada. Vez em quando passava uma criança gargalhada na enxurrada. Criança fugidia.

Chuva  forte, hoje, é seca vista da janela. A enxurrada é solitária, cheia só de água - e só leva o que encontra, porventura, pelo caminho; não leva as coisas chatas e sem importância da vida adulta. Ah! Como seria bom jogar na enxurrada e ver a água levar embora, com força, toda tristeza e solidão."

"-Uma mulher deslumbrante.

O olhar de uma criança é despido de qualquer preconceito. Veste-se puramente do que vê."

"(...) a felicidade é fruto de um estado de paz consigo, plantado e alcançado no seio familiar."


"(..) que saudade pérfida é essa a causada pela morte! Uma saudade mesquinha, que não se mata, ao contrário de quase todas as outras saudades como a de amor, romântica, por vezes até gostosa, inflamadora das paixões; a saudade de casa ou mesmo a saudade da infância que também não volta, mas reside no curso natural da vida: tê-la vivido para poder se lembrar. Mas, a da morte não. A morte é uma luz que se apaga definitivamente em nossa existência, especialmente porque as pessoas se vão de súbito e sem se despedir. É uma luz que nunca mais se acenderá."


"(...) é colossal a impotência humana diante dos caminhos escolhidos, diante da morte, diante do tempo."


"Trocávamos muitos bilhetes e olhares diariamente, pois naquela época não existia celular e as paixões vinham com caligrafia e brilho pessoais. E como ela me olhava e me escrevia lindo!"


"(...) talvez não estivesse pronto para deixar de ser criança. Só sei que lhe respondi que, com aquele sorriso, ela já me dava tudo que eu precisava. E saí. Acho que eu estava pronto era para ser poeta."


"Sexo pode ser só a cereja do bolo, mas, amizade, intimidade e carinho são conexões humanas."

"Porque um sorriso sincero, sem sarcasmo ou ironia, é a resposta espontânea mais pura a algo bom.

Sorri-se pela beleza, sorri-se pelo talento, sorri-se por amor, sorri-se por admiração...
Ah, se todo mundo entendesse o valor de um sorriso e sorrisse...
O sorriso é um elogio desenhado  no rosto."

"Negar-lhe qualquer coisa seria como expulsar do colo um gato que subiu de livre espontânea vontade. Gatos, geralmente, não sobem espontaneamente no colo: são reservados e independentes; quando sobem, é um evento tão especial no universo, que, por mais que precisemos levantar e sair, não saimos...

Ela era um evento especial no universo."
(Lindo, lindo, lindo!)

"(...) porque certos sorrisos também são palavras."


"Primeiro que nem todos os homens são iguais. Há aqueles que veem nos detalhes as maiores riquezas do mundo e pensam que muitas vezes uma joia não é aquela que o homem pendura no pescoço da mulher e sim a que ele recebe de seus olhos todos os dias. Carinho e atenção são trocas, não tributos. São as provas evidentes de uma união humana, voluntária e feliz. Não têm nada a ver com dependência sentimental. Se não sou casado ainda é porque não encontrei quem me ilumine com  essa sensação. E jamais me casaria sem ter essa chama arder reciprocamente nos olhos."

(Disse tudo.)



"Na hora de eu ir embora, (...) tive a impressão de que seu abraço, pela primeira vez, teve o mesmo prazo do olhar. (...) e para olhares e abraços presentes não existe devolução."

"A  verdade mora na espontaneidade."


"Sim. Eu te amo. E é uma pena ter dito isso sem que você estivesse me olhando nos olhos."



Até a próxima postagem.










Seguimos em isolamento social
por conta da pandemia, ainda na
versão eu de cá e tenho colocado
minhas leituras em dia, meu blog, meu Sol,
minhas tarefas pessoais, além de limpezas,
arrumações, reorganizações, porque a vida é
RENOVAÇÃO! E só pra confessar: 
adoro a ideia de ser dona de casa.
E que não percamos a fé em dias melhores,
a fé no futuro, vibrando sempre positivo
pelo nosso Brasil e pela humanidade!
Juntos somos mais fortes!



















Fique em casa. 
Tudo passa.